Por dentro do jogo: tem que manter isso, viu, Fluminense? (Por Bruno Leonardo)

Jogadores comemoram gol de Richarlison contra o Atlético-MG (Foto Nelson Perez/FFC)

Imagine se você, caro leitor, dispusesse do dom da premonição e vislumbrasse, horas ou dias antes da partida, que o Fluminense estaria vencendo o duelo contra o Atlético-MG por 2×1, em pleno estádio Independência, quando aos 34 minutos da etapa final perderíamos Sornoza por lesão, o que nos obrigaria a jogar com menos um homem por já termos queimado todas as substituições?

Não obstante toda esta dificuldade, imagine que nesta visão do futuro Lucas já teria ficado pelo intervalo mesmo, em função de uma entorse, substituído pelo hesitante Renato, e que Abel, na sua eterna confiança (ou teimosia) em Marcos Jr. o colocasse para jogar no lugar de Richarlison? E que, para embalar este pequeno cenário de suspense, o árbitro da partida, caseiro de raça, revertesse uma pá de faltas e só aplicasse cartão em jogadores do Fluminense?

Agora imagine que por algum sadismo de quem resolveu lhe descortinar essa revelação, você fosse privado de saber o desfecho?

Tenso, não é mesmo?

Somente o Fluminense para se equilibrar nessa adversidade como alguém que é escolado em se desvencilhar do caldeirão do inferno andando sobre uma corda bamba, e sair disso tudo com a vitória.

Abel, na entrevista concedida na área mista, havia percebido o tamanho da arapuca e alfinetou: “hoje foi cerceado o meu direito de obter a vitória”.

E foi mesmo um padrão de arbitragem. Logo ao cinco minutos de jogo, com a bola já fora da jogada, Adílson aplica em Sornoza um rapa pouco amistoso por trás e levanta o meia equatoriano do chão, que precisou de atendimento médico. O soprador de apito, Jean Pierre Lima, sósia do ator Vin Diesel, nem cartão deu.

Ao final da partida, Marcos Júnior, com o intuito de ganhar tempo, conduz a bola lentamente para o quarto de círculo do córner, leva um chega pra lá de Maicossuel, cai ao chão e leva um pisão, mas é advertido com cartão amarelo por simulação!

O terreno era inóspito. O Atlético-MG, além de ter um dos melhores elencos do país, pressiona a arbitragem. Se recusa a praticar o fair play, cerca o árbitro em bando, reclama de pênalti em qualquer jogada minimamente duvidosa e também bate. A torcida joga junto nesta intimidação sobre árbitro e adversário, e se alimenta a cada ano da certeza que o Galo é sempre prejudicado.

Justamente pelos elementos de tensão e dificuldade presentes no jogo é que o grupo merece ser parabenizado por esta vitória. Ajudou também, e muito, o perfil do nosso elenco, que é voltado para o jogo e não para o confronto. A maioria dos nossos jogadores toma a porrada, cai, se contorce, e volta pro jogo, sem aquela mania do jogador brasileiro de marcar a cara de quem bateu para revidar na próxima jogada ou coisas do tipo.

Confesso que não estava muito otimista para este jogo. Tinha assistido à goleada do escrete atleticano sobre o Godoy Cruz pela Libertadores, também no Horto, e estava especialmente receoso em ver como transcorreria o duelo Fred x Renato Chaves. Mas não somente Fred inspirava cautela. Todo o meio de campo dos caras, a começar pelo excelente Cazares, recomendava atenção redobrada. O Fluminense, por sua vez, veio de um duelo recheado de falhas defensivas contra o Grêmio.

O primeiro acerto de Abel foi não ter escalado Renato Chaves. Nogueira, apesar de muito jovem e ainda sofrer com uma certa desconfiança da torcida, esteve em uma tarde muito feliz. Seguro nas bolas altas, nas rebatidas, nos bloqueios, foi um companheiro que não obrigou Henrique a jogar por dois.

O segundo acerto de Abel foi posicionar as duas linhas de 4 defensivas bem próximas uma da outra no primeiro tempo, sem obrigar Scarpa a fazer a recomposição pelo lado o tempo todo. O Fluminense da esquerda da sua defesa para a direita formava a 1ª linha com Richarlison, Sornoza, Orejuela e Wendel, fazendo a parede defensiva de acordo com o movimento da bola. Scarpa e Dourado se posicionavam mais à frente para serem elos de ligação a partir da conquista da segunda bola.

O Atlético provou um pouco do veneno a que o Fluminense fica exposto quando enfrenta equipes mais modestas e precisa propor o jogo. Teve muita dificuldade de infiltrar pelo meio e quando precisou atacar pelos lados encontrava nossos laterais bem postados, uma vez que estes pouco subiram para atacar. Roger, sem poder dispor de Robinho, lançou Elias aberto na direita, e o entendimento entre ele e Marcos Rocha não foi dos melhores. Otero na esquerda, também não repetia suas melhores jornadas. O Atlético ameaçava apenas com Cazares, mas era insuficiente.

Sem espaço para infiltrar, e com a transição rápida para o ataque negada pela disciplina defensiva do Fluminense, ao Atlético coube abusar dos cruzamentos: foram 43 em todo o jogo (apenas 8 certos) contra apenas 17 do Fluminense. Importante registrar o bom número de desarmes tricolores ao longo do jogo: foram 13, contra 10 do Galo, sem que houvesse um destaque absoluto. A média foi de praticamente um desarme para cada jogador, evidenciando o engajamento de toda a equipe.

Houve esboços, no 1º tempo, do retorno daquele 4-1-4-1 que marcou o início da nossa temporada. Wendel e Sornoza jogavam uma linha à frente de Orejuela ( o primeiro “um”). Próximos aos dois meias, Richarlison, na esquerda, e Scarpa pela direita, flutuavam mais entre a linha de meio de campo e a intermediária do que esperavam ser lançados no último terço de campo, ajudando a forma a segunda linha de 4 da equipe. Scarpa, mais do que Richarlison,  fechava por dentro para preencher o meio e escorar passes de costas, servindo de apoio para tabelas. Dourado, por sua vez, foi o segundo “um” do esquema, vindo até a intermediária para aproximar com o restante do time.

Nossa primeira jogada elaborada já resultou em gol. Lançamento longo de Sornoza para Dourado na intermediária, que domina, faz o pivô, e gira na esquerda para entrada de Richarlison, que ganha na corrida de Marcos Rocha, é tocado e sofre pênalti. Aliás, o retorno de Richarlison para o lado esquerdo de ataque protagonizou alguns momentos de superioridade física sobre o franzino Marcos Rocha, que cortou um dobrado com o atacante tricolor.

Nosso segundo gol nasce de outro lançamento, em que, ao proteger a bola com o corpo, Dourado se desvencilha de Fábio Santos (que vai ao chão), e obriga o bom Gabriel a sair da posição para cobrir o lado da área.  Felipe Santana também é deslocado de sua posição original para ocupar o centro da área. A bola viaja até o segundo pau, onde o baixinho Marcos Rocha perde a disputa para Richarlison, que sobe e cabeceia no contrapé de Victor. Fluminense 2×0.

Aí você pensa: dois gols de diferença, agora é administrar o jogo, tirar proveito do desespero do Atlético-MG e desfrutar dos espaços concedidos para engatar contra-ataques. Ledo engano. O Fluminense definitivamente não gosta de tranquilidade e não possui essa habilidade de cozinhar partidas. O gol do Atlético veio logo em seguida, numa batida de escanteio em que Dourado não acompanhou até o fim a chegada do zagueiro Gabriel, que sem precisar sair do chão, testa com força no meio do gol. Com a visão parcialmente coberta, Cavalieri pouco pôde fazer.

No segundo tempo, correndo contra o relógio, e buscando atalhos para o gol, Roger Machado sacou Otero e colocou Rafael Moura para duplar com Fred na área. Recua Elias para a volância e entra com Maicossuel. Percebendo o movimento, Abel passa a formar uma última linha defensiva de 5, com Orejuela entre os zagueiros, para fechar uma trinca de boa estatura no miolo da área. O Atlético-MG passou a ser um samba de uma nota só, alçando bola altas e aproveitando o rebote nas imediações da grande área para arremates perigosos.

Nesta altura do jogo, um nome passa a se destacar com o misto de qualidade e coração que caracteriza os grandes jogadores: Wendel. O que este menino soube se posicionar para ganhar as segundas bolas na entrada da nossa área foi uma grandeza. Com a mesma desenvoltura carregava a bola no campo de ataque, tocava e abria no lado para receber e dar prosseguimento à jogada. Parecia o Multi-Homem do antigo desenho Os Impossíveis. Seu mapa de calor é um borrão que ocupa o campo inteiro.

É preciso registrar que Douglas também fez bom papel entrando no lugar de Gustavo Scarpa, dando consistência ao meio de campo. Fica a torcida para que, livre dos problemas físicos, e com sequência de jogos, volte a ter o desempenho que o já levou à seleção sub-20. O futebol é novidadeiro: a escalada fulminante de Wendel fez Douglas ser subavaliado por parte da nossa torcida, como produto obsoleto na prateleira. Talvez agora, com a triste notícia da fratura de Sornoza, suas qualidades como meia, talvez maiores do que as existentes como volante, apareçam.

O Fluminense conquistou 3 pontos valiosos que nem todos os concorrentes na tabela irão obter no Independência. O Fluminense, no fundo, funciona melhor assim, quando está quieto e meio deixado de lado pela mídia. Sofre com limitações de elenco e com a necessidade de vender jogadores por conta de uma gestão que se anunciou competente nas finanças e se revelou uma fraude. Mas é o Fluminense. É a camisa que constrange os pseudo-entendidos e os idiotas da objetividade. Onde qualquer um sucumbe, o Fluminense sobrevive e brilha por ser o Fluminense. Vamos nessa ilusão, de rodada a rodada, até que a realidade se canse de sabotar o Tricolor.

O que precisamos é manter essa unidade entre equipe e Abel, que a torcida vem junto. Manter esse espírito de luta, de tenacidade e de aversão à derrota a cada jogo.

Perdoem-me pela referência ao quadrilheiro que enlameia a presidência da república, mas fica um pedido ao nosso Tricolor: tem que manter isso, viu Fluminense? Num grande plano nacional.