Onde a vaidade não tem vez (por Bruno Leonardo)

 

Eu não esperei a partida contra o Grêmio terminar.

Com 2×0 contra no placar, virei pro Paulinho, autor de mais 4 mil gols em peladas (todos registrados em súmula) e perguntei “vambora?”, no que ele aquiesceu com a cabeça. Por instinto, Paulo quis ficar mais um pouco. Até constatar que a vaca havia sentado e cruzado as pernas no brejo. Daí partimos, eu, ele e um amigo em comum.

Era o melhor que podíamos ter feito. Ao chegar em casa e poder conferir com calma as notificações do celular, me deparei com relatos no Whatsapp que descreviam um cenário torturado de organizadas partindo em direção à Bravo 52 para brigar, polícia chegando para tentar apartar, gás de pimenta no ar queimando gargantas e olhos, famílias assustadas tentando fugir da confusão.

Quem tentou sair pelo nível 5 para descer pela rampa monumental do Maracanã, encontrou portões fechados e não teve outra alternativa a não ser voltar para o meio do confronto para sair por um dos túneis de acesso à arquibancada.

Entristece se dar conta de que os relatos são absolutamente críveis. Ao término da segunda partida da final do Carioca, presenciei cenas semelhantes. De tricolores escolhendo aleatoriamente outros tricolores para agredir. Algumas das cenas mais primitivas e melancólicas que tive o desprazer de presenciar.

O futebol já anda espantando o torcedor por motivos outros. Como se não bastassem, tratamos nós mesmos torcedores de contribuir para que a experiência do torcedor eventual se transforme em uma aventura cada vez mais eventual. E depois enchemos a boca para dizer que nossa torcida é fraca, gosta de sofá e pouco comparece.

É chato, constrangedor, ter que abordar esses fatos para uma torcida que se preza por ser “diferenciada” e mais ordeira que a dos seus rivais. Não me causa satisfação alguma. É lamentável ver torcidas organizadas se associarem simplesmente para tentar abafar o canto da molecada e ainda partir para a intimidação física no final do jogo, colocando torcedor comum na reta. Isso é manual do capeta de como acabar aos poucos com a torcida do Fluminense. Busquem inspiração no Seu Giesta, não na busca de um bode expiatório.

O Fluminense não vai bem em campo e fora dele vai pior ainda, sem dinheiro para reforçar elenco, quebrado após uma repetida e falsa cantilena de dívidas equacionadas. É natural que queiramos encontrar um culpado. É do processo. Mas se abandonarmos a racionalidade, vamos culpar qualquer um, de preferência aquele que estiver mais próximo e ao alcance da nossa fúria. E a bola da vez é a Bravo.

Eu me sinto absolutamente distanciado para falar da Bravo. Não sou integrante da torcida e não possuo relação de amizade com nenhum de seus integrantes. Tampouco me sinto identificado com sua filosofia de apoio incondicional, que eu acho particularmente nonsense quando o Fluminense está levando uma bordoada em campo e sequer existe mais tempo hábil para uma reação.

Mas como nada é tão simples e unidimensional, como todo bom tricolor já me esbaldei de cantar suas músicas na saída de jogos. Após uma vitória do Fluminense, então, é de se deliciar. É daqueles momentos que a gente guarda as agruras da vida numa gaveta e se permite se feliz sem moderação. Afinal, amar o Fluminense é nossa raiz.

Convém não menosprezar a inteligência dessa garotada. Ela não se presta a nenhuma tentativa de cooptação, seja da Flusócio , seja da oposição. Caminha com pernas próprias. Caiu do cavalo, inclusive este blogueiro, que confundia sua filosofia de apoio incondicional com uma eterna falta de cobrança. A cobrança veio, publicada em sua página oficial no Facebook. Com o lastro que só tem quem nunca faltou com o carinho.

O azar é de quem, ao longo do tempo, preferiu parar no tempo. De quem preferiu se abraçar com a cultura de violência que assola o futebol e a sociedade brasileira como um todo. O tempo passou e nem todos perceberam que as músicas que exortavam a dar porrada na torcida rival ou na PM não faziam mais sentido. O tempo passou e a relação promíscua, oscilante com a diretoria do clube, movida ora pela oferta, ora pela negação de ingressos e custeios para viagens/festas ficou escancarada. O acúmulo de suspensões sucessivas e termos de ajustamento de conduta gerou ausência na arquibancada e o espaço vazio foi preenchido. Primeiro pela Legião, depois pela Bravo. E o povão foi junto.

Portanto existe um tanto de inveja, despeito, sensação de protagonismo perdido nas arquibancadas. Sentimentos que se escondem atrás de frases do tipo “quem esses adolescentes se acham para querer nos ensinar a torcer?”ou “é por casa desse apoio incondicional, sem cobrança, que estamos nessa merda”. Sentimentos perfeitamente humanos, mas somente possíveis para quem coloca a própria vaidade acima dos interesses do Fluminense.

Nossa única vaidade deveria ser torcer para o Fluminense. Ela basta e vai além de bastar, ela nos confere um aura especial, reconhecível a quilômetros. Quando encobrimos o canto da massa rubro-negra ocupando apenas 30% do Maracanã, fizemos todos juntos. Para a mídia não foi a Bravo, a Young, a Força, a Garra, a Fiel Tricolor ou a Flunitor que calou. Foi a torcida do FLUMINENSE.

Eu tenho horror a querer ensinar alguém como torcer, e portanto, guardo repulsa por essa pretensão de querer padronizar o comportamento da torcida. Quem paga seu ingresso deve ter por balizador e limite o direito do outro. Do apoio incondicional à vaia, passando pelo protesto politico, estão todos no legítimo exercício do seu direito, contanto que não cerceie o estilo de torcer do tricolor ao lado.

Portanto nós, que tantas vezes encontramos unidade na diversidade, vamos desaprender agora? Nós que sempre encontramos um espaço comum, de intersecção entre as diferentes filosofias de arquibancada, vamos involuir agora?

Justamente agora que não há dinheiro, e portanto, não haverá tão cedo um time à altura de nossas tradições? Vamos continuar apostando nessa autofagia ridícula, para deleite dos rivais?

Há um panorama de médio e longo prazo que requer nosso acompanhamento constante. Envolve gestão do futebol, do marketing, das finanças, do perfil de Fluminense que queremos construir.  É a dimensão do debate, das críticas, do contraditório, das divergências.

No curto prazo o que temos é esse Fluminense fragilizado que põe responsabilidade excessiva nas costas de jogadores recém-saídos da base, com 8 jogadores no departamento médico e que anuncia como reforços jogadores da sua filial eslovaca de segunda divisão. Por inépcia administrativa, pequenez de pensamento e uma cultura de ação entre amigos.

Só temos alguma chance que esse curto prazo não degenere numa espiral de derrotas e uma crise fora de controle se tivermos muita clareza de duas coisas: 1) apesar dos vários erros, é com Abel que devemos prosseguir. Não há outro treinador no cenário brasileiro disposto a segurar até o fim esse rabo de foguete que é o Fluminense de hoje. As críticas a seu trabalho são válidas, desde que não busquem oferecer motivos para sua fritura e futura demissão. 2) Sem fazer algo acima do trivial nas arquibancadas, e sem coesão, vai faltar o ingrediente anímico, emocional. Nosso time é esse, ele precisa operar no limite, e ajudará um bocado se a gente arrepiar a epiderme dos caras.

Por que não começar a exercitar isso no domingo? Vamos calar os dissidentes de novo? Vamos ganhar deles mais uma vez? É normal. E vamos precisar de todo mundo. Da playboyzada que estica trapos até a playboyzada que cola os punhos.