Sobre Abel, João Pedro e afastamentos (Por Bruno Leonardo)

 

De tempos em tempos, a torcida do Fluminense se depara com campanhas de convocação. 

Há sempre um certo número de almas voluntariosas e bem-intencionadas acreditando que, bom, editando um vídeo com o apelo emocional certo, ou redigindo um texto com as frases bem encaixadas, corações indiferentes serão tocados e convencidos a comparecerem ao Maracanã para algum jogo capital. 

O evento da vez é a homenagem a Abel, que em uma inversão cronológica cruel da vida perdeu o filho João Pedro, e numa prova de grandeza espiritual, apareceu 48h depois para comandar um treino no CT, contra todas as apostas. 

Quando uma torcida precisa ser convocada, ou “intimada” (como disse um dirigente do clube ontem) nas redes sociais e na mídia segmentada, é sinal de que ela deixou de comparecer muito, muito antes. A própria iniciativa em exortar a torcida a comparecer já reflete o diagnóstico daquele que exorta de que a torcida não vai aparecer na quantidade desejada. 

O torcedor mais fiel arranca os cabelos, desabafa, pontifica sobre a natureza preguiçosa da torcida, impinge todos os apelidos e rótulos possíveis, e com isso tira um pouco do peso que lhe oprime o coração. 

A questão é que todo lamento sobre nossa baixa média de público evidencia um foco no problema, mas não na solução. Quem desconhece a solução, foca no problema e no aparente beco sem saída que ele traz. É um ciclo vicioso. 

Quando Abel aceitou retornar ao comando técnico do Fluminense foi prontamente informado sobre o estado caótico das finanças do clube e sobre a imperiosidade de liderar um time de garotos, pela completa impossibilidade de se trazer reforços de peso. Abel passou um bom tempo em Portugal e ao retornar, não encontrou apenas um Fluminense deteriorado. Encontrou um Brasil, e especialmente um Rio de Janeiro muito deteriorado. 

Neste sábado, um público de 20, 25 mil pessoas vai decepcionar quem projetou um público fora da curva da realidade recente do Fluminense, que é de públicos pífios. Mas arrisco dizer que não decepcionará Abel. 

Não tem sido outro o panorama da torcida desde que ele chegou. Excetuando nossa partida de estreia pela Copa Sul-Americana, em que pusemos 37 mil pessoas no Maracanã, o que Abel tem encontrado é uma rotina de públicos fracos. Inteligente e perspicaz como é, Abel já percebeu que os tempos mudaram, e que nossa torcida não é a mesma da época em que trajava o manto do Fluminense como zagueiro. 

Até mesmo a torcida do nosso arquirrival, que ele se acostumou a ver lotando a Geral do Maracanã com seus desvalidos, imantados de amor incondicional, mudou. Hoje é uma torcida embranquecida, rica e muda, capaz de ser suplantada no gogó por um punhado de tricolores em número 4 vezes inferior. 

O Fluminense vive uma crise crônica de público. Como dizia Nelson Rodrigues, o subdesenvolvimento não se improvisa, ele é obra de séculos. Guardando a essência desse ditado, e não tomando seu enunciado ao pé da letra, é possível dizer, de forma análoga, que nossa crise de público não foi improvisada. Foi um processo construído de forma lenta, gradual e consistente, desde as sucessivas interdições do Maracanã, passando pela descontinuidade de planos de sócio e políticas de ingresso, até a perda de ídolos. 

E tudo isso não será corrigido com ações pontuais, tais como promoção de ingressos, realização de mosaicos, campanhas de convocação ou homenagens. É o momento de todos nós desapegarmos de nossas teorias mais queridas, pois existem contundentes exceções para cada uma delas, e apostar no conhecimento profundo dos diferentes segmentos da torcida tricolor. E só uma pesquisa ampla, meticulosa, profissional, pode nos trazer tais dados.  

Depois que o torcedor abandona o clube, trazê-lo de volta exige trabalho. Um trabalho tão árduo, persistente e minucioso, que chega a irritar os mais impacientes. É sedutor, pois, ficar amarrado ao discurso de lamentação sobre a torcida. Não resolve, mas consola. Como assim ter que convencer o indivíduo a ir para o estádio para torcer pelo seu clube de coração? Pior, como é possível ter que convencê-lo a sair de casa para abraçar o Abel, um cara que cometeu tamanho sacrifício em prol do Fluminense, comparável ao de Castilho? 

O que os parcos 11 mil ingressos vendidos até agora comprovam é que a crise de público é tão profunda que não há comoção que tire o torcedor do Fluminense do seu distanciamento perturbador. 

Não é um processo anímico muito diferente de amigos que de tanto não se verem mais, se contentam em parabenizar os respectivos aniversários pelo Facebook ou pelo Whatsapp, e até uma prosaica ligação telefônica dispensam.   

Ou, para ficar num exemplo mais pungente, de lados familiares que de tanto se apartarem, nem no velório de um dos seus membros se veem mais. 

O afastamento, de tanto ser praticado, pode virar um caminho sem volta. 

Hoje a realidade se encerra no mundo virtual antes de chegar ao presencial. Não duvido que muitos se deem por satisfeitos por terem prestado as condolências virtuais ao Abel. Os tempos são outros, virtuais. As relações são líquidas, atingem seu ápice e fim antes mesmo de se tornarem reais. Além do virtualismo das relações, não somos um país que presta culto à morte. Qualquer luto por aqui não dura mais que 72 horas. Depois disso já estamos todos ocupados com o próximo escândalo político, o próximo clipe da Anitta, o próximo aumento da gasolina. 

O torcedor do Fluminense também está um tanto fatigado de ir ao estádio e não mais reconhecer o seu time. Estranha ver o presidente falando que os próximos 3 anos serão de objetivos modestos e de arrumação de uma casa que já se supunha arrumada. 

Estão todos, com muita justiça, preocupados com os sentimentos do Abel, mas poucos se mostram preocupados com os sentimentos do torcedor tricolor. Este é rotulado com todos os adjetivos desairosos: preguiçoso, mimado, tricoleba, flubabaca, torcedor de sofá. Este se vê obrigado a demonstrar paixão nas condições mais adversas, mais canhestras, e não tem direito a contrapartida da diretoria. Que pague o ingresso, que pague a mensalidade de sócio, e não reclame da escassez de títulos. A paixão basta. Ele que aprenda a extrair prazer do sofrimento e se orgulhar disso. 

Ver o Fluminense perder campeonatos em sequência também produz lutos silenciosos, solitários. 

Abel, numa frase de grande inspiração disse que já tinha perdido João Pedro para a morte, mas se recusava perder também para a vida. Amanhã, qualquer que seja o público presente, ele encontrará força e motivação para seguir em frente. Provavelmente preferirá agradecer aos torcedores que foram abraçá-lo a citar os ausentes. Abel vive em estado de gratidão pela vida. E nós, tricolores, vivemos em estado de gratidão pelo seu exemplo. 

A perda física de um filho é uma dor muito ruidosa, presente. E por isso desperta, merecidamente, atos e palavras de solidariedade. Tite, Cuca, o presidente Abad, o mundo do futebol abraçou Abel e se nutriu de sua própria energia. 

O que me preocupa especialmente é a morte lenta do Fluminense, em vida. Porque ela é sutil, e nem todos percebem. Cuidemos do Abel, do Fluminense, se não vem o apequenamento, ou coisa parecida. 

Que tudo comece com uma grande vitória sobre o Atlético-GO, no Maracanã, com as bênçãos de João Pedro, nosso novo João de Deus.