A terapia do silêncio (Por Bruno Leonardo)

Ele chama Orejuela de Jefferson, Sornoza de Júnior, e deixa alguns jornalistas perdidos com isso. 

Já me fez arrancar a cueca pela cabeça pela insistência com Marquinho. 

Ele usa mocassim sem meia, mantém sempre um casaco em volta do pescoço, só por estilo, e os óculos escuros suspensos sobre a cabeça. Sabe apreciar um bom vinho, toca piano, administra restaurante e ao mesmo tempo fala “Xélssia”, “pobrema”. 

Em certos jogados embaçados para o Fluminense, demora a fazer substituições, e nem sempre acerta. Todo jogo sua defesa toma gol e eu fico me perguntando como é que ele não consegue dar um basta nisso. 

Abel é tão peculiar quanto o meu pai. Parece que ambos saíram de alguma fôrma que só foi utilizada uma vez e depois jogaram fora. 

Você que me lê provavelmente já passou por várias escalas de sentimentos com ele. 

Você já precisou perdoar o Abel alguma vez e só o fez porque o ama. Da mesma forma que eu e meu pai mutuamente já nos perdoamos pelo mesmo motivo. 

O Fluminense vive no extracampo um momento confuso, dividido, potencializado pela capacidade das redes sociais de alimentarem rixas. 

Talvez nosso único ponto de intersecção no momento seja Abel. Abel aproxima os tricolores com a mesma facilidade que um gol. No velório de João, expoentes de correntes políticas antagônicas dialogaram. 

Abel também é um embaixador do Fluminense. Você já se perguntou quando pauta negativa sobre o clube seu carisma e sua presença evitam? Se o ranço contra o Fluminense ainda persiste em alguma matéria malcriada aqui ou acolá, sem ele, tenham a certeza que seria muito pior. 

Por tudo que essa figura representa, no último sábado, o Maracanã mergulhou em silêncio. 

Não foi um silêncio qualquer, mas uma enorme sessão de meditação coletiva. Era possível auscultar uma batida de coração, uma respiração compassada, um suspiro precedendo o choro. Mas nenhuma palavra. Um silêncio tão absoluto que, paradoxalmente, soava estridente aos ouvidos da alma. 

É como se um enorme buraco negro tivesse engolido por um instante o alarido das discussões políticas, das vaias de rodadas passadas, dos protestos (legítimos) das arquibancadas, e até mesmo das nossas aflições íntimas. 

Juntos, descobrimos o poder curativo do silêncio.  

Juntos, vencemos a morte. Descobrimos que ela é pau, é pedra, é um pouco sozinho, mas não é o fim do caminho. Oramos por João Pedro, e um pouco por nós, porque no fundo, há uma promessa de vida em cada coração. 

A vida, e o Fluminense, continuam. Nos múltiplos planos da existência. 

Não é à toa que nunca nos metemos a besta de decretar a morte do Fluminense. Embora um tanto fatigados com o enfrentamento constante de crises, elas jamais nos impressionam. 

Sim, houve um jogo.  

Pela primeira vez o jogo foi o protocolo, não o clímax do evento. 

Ainda mais protocolar porque vencer o lanterna do campeonato se afigurava obrigatório. 

O Fluminense não encontrou um Atlético-GO tão fechado quanto era de se esperar. O time goiano, limitações à parte, tem um aspecto peculiar para um clube cuja única pretensão no campeonato é evitar o rebaixamento: não joga apenas por uma bola. A verdade é que em certos momentos o jogo de meio de campo deles fluiu melhor do que o nosso. 

Time de contra-ataque, o Fluminense mostrou novamente a dificuldade de infiltrar pelo centro do campo quando encontra a defesa adversária montada. Concentrava o jogo pelo lado, mas sem conseguir efetuar jogadas individuais ou de ultrapassagem que levassem a bola até a linha de fundo. Nossos cruzamentos saíam da quina ou da lateral da área, quase sempre inofensivos, sem a consciência de um passe. 

O Tricolor finalizou poucas vezes na etapa inicial. Apenas 4 finalizações, duas certas, no alvo. 

Primeiro com Wendel, aproveitando sobra de uma jogada individual de insistência de Wellington, à feição de quem abre uma clareira na mata à base de foice. A abertura do placar provocou uma das reações mais efusivas de comemoração de Abel que já se viu. 

Oito minutos depois, Henrique falha em afastar a bola da área, perde a bola para Paulinho, que empata o jogo desferindo uma bomba nas redes de Júlio César. Apreensão no Maracanã. 

Que só aumentou quando a bruxa das contusões voltou a dar as caras, dessa vez lesionando o joelho de Calazans, que fará cirurgia e só retorna em 2018. 

Menos mal que em sua primeira participação no jogo, Matheus Alessandro, que substituíra Calazans, descola um passe em diagonal furando linhas de defesa e encontra Wellington bem posicionado no lado esquerdo, que limpa a jogada e marca um belo gol, chutando cruzado, metendo curva na bola. 

O Fluminense daria números finais à partida em um dos poucos lances em que conseguiu acelerar a jogada pelo lado de campo com eficiência, quando Marlon Freitas invadiu o espaço vazio (famoso toco y e me voy) e projetou o lateral Marlon na linha de fundo, nas costas de Andrigo. Na sequência do lance, Roger Carvalho engrossa ao tentar afastar a bola e Henrique Dourado, em sua primeira finalização, acerta belo chute de primeiro no canto direito de Felipe Garcia. 

Os minutos finais da partida ainda registrariam a entrada de Robert, que parecia completamente fora dos planos de Abel, e volta a ganhar uma oportunidade. 

O Fluminense fazia, assim, as pazes com a vitória nos seus próprios domínios. 

Da mesma forma que, antes da partida, fizera as pazes com o coração.  

Qual Fluminense nos aguarda na próxima quarta, diante da Ponte Preta? Aquele que almeja o G6 ou deseja ver o Z4 sumir do retrovisor? 

Arriscado prever. É irresistível querer acreditar que o exemplo de superação de Abel não terá sido em vão. Ao mesmo tempo, sabemos que apesar da sua dimensão emocional, o futebol não é feito apenas com olhos marejados e nós na garganta. Ele cobra o preço de um Fluminense que não fez o dever de casa gerencial nos últimos anos. 

Mas não está morto quem peleja, e sobretudo, não está morto quem desconfia da morte.  

O Fluminense desconfia. Tem muito a viver. 

E, em breve, pretende perder o medo de fantasmas. Aqueles da altitude.