“Jovens tardes de domingo […] Quantas alegrias”

Era dezembro de 1984, mais especificamente “O dia do fora”, que me foi dado pela Márcia, prima do colega Luiz Henrique Gusmão. À noite, enfrentar-se-iam Flamengo e Campo Grande, pela penúltima rodada do segundo turno do Cariocão. Uma vitória do urubu sobre o campusca eliminaria o Fluminense do então valorizado campeonato estadual. Os flamenguistas riam de orelha a orelha. Colérico, disse-lhes algo assim: “Ganhem do Campo Grande, senão vocês estão f….”.
Fim de jogo: Flamengo 1 x 1 Campo Grande.
kkkkkkkkkkk
Flamenguistas – Alberto, Arlérico, Antônio Henrique e outros – e vascaínos – Yoggi, Briza, Caveirinha e outros – entreolhavam-se, como se pressentindo o desfecho. Sem meias palavras, o Fluminense era temido pra cacete!
Pois bem, o Fluminense voltara ao páreo, mas ainda precisava derrotar o Flamengo no último jogo da Taça Rio, a fim de obter a melhor campanha, credenciando-se, assim, para o triangular final do campeonato. Um simples empate nos eliminaria e daria ao urubu vantagem sobre o Vasco na final de 1984. Era um sábado, lembro bem. Prestava eu vestibular para Engenharia na PUC/RJ. A prova terminou às 18:00. Peguei o ônibus 996 – “Charitas x Gávea” – chegando em Niterói por volta de 20:00. Engoli um pedaço de pão e às 20:20 já estava na fila do ABC – “Santa Rosa x Vila Isabel”. Cheguei ao Maracanã em cima do hora do jogo – 21:15. Cansadíssimo, fui ao estádio impelido por um sentimento que todo tricolor de pelo menos 50 anos conhecia bem: a certeza da vitória do Flu em jogos decisivos. Não deu outra: Fluzão 2 a 1. A propósito, certa feita, Jorand me lembrou da imensa maioria de tricolores no estádio naquele dia. Verdade, meu amigo!
No domingo seguinte, já pelo triangular final, Fluminense 2 x 0 Vasco. Era a segunda porrada neles no mesmo ano, pois ganháramos o Brasileiro de 1984 em cima do bacalhau. Aliás, contra o Vasco era “trolha” em cima de “trolha” – para eles, claro!
Sete dias depois, a finalíssima com o Flamengo: Fluminense 1 x 0, golaço de Assis e a consagração do “Carrasco” e do “Recordar é viver!”
Em suma, três fins de semana, três jogos decisivos, três vitórias incontestáveis sobre rivais fortíssimos.
Aquele time do Fluminense era especial? Era, com certeza!
Mas o Fluminense, como um todo, também era especial, amigos. Era um compósito entre time e torcida que era alucinadamente apaixonante e inexoravelmente vencedor.
Querem outros exemplos?
Em 1980, com um “timinho” – “Não tem Zagallo, não tem Coutinho, o campeão é o time do Nelsinho” – superamos os fortes Vasco e Flamengo. Com direito a show nas arquibancadas – “A benção, João de Deus”.
Em 1987, vencemos o Vasco três vezes: 3 x 0 (Fluminense sem treinador), 2 x 0 (golaço do Washington) e 2 x 0, abrindo sobre eles confortáveis 25 vitórias a mais.
O Botafogo, coitado, era uma mera nota de rodapé, com todo o respeito ao meu querido e talentoso amigo Octávio Guedes.
Aos fim dos jogos, descer as rampas da arquibancada do Maracanã zoando os adversários era algo inenarrável – e bastante comum.
O Fluminense era o rei dos clássicos no Rio de Janeiro – o que se refletia na hegemonia de títulos estaduais. Não tinha pra ninguém!
Como diria o Rei Roberto Carlos: “Velhos tempos […] Belos dias”.
Era delicioso ir ao colégio nas segundas-feiras…
De repente, tudo mudou.
A carruagem virou abóbora. O Vasco inverteu a freguesia, nos surrando impiedosa e seguidamente. O Flamengo, idem. O Botafogo, quem diria, também foi no embalo dos rivais.
Não me lembro, sinceramente, da última vez que, com o estádio cheio e dividido, saí “zoando” a torcida adversária. Ao que me lembro, aliás, a última vez que fomos campeões, no Maracanã, em cima de um rival foi em 1995 – e o estádio não estava dividido, convém lembrar.
Minha filha de 20 anos nem era nascida quando isso ocorreu. Ou seja, ela, frequentadora assídua do Maracanã, nunca viu o que eu cansei de ver.
Erros decisivos de arbitragem aconteceram? Sim, aos borbotões. Sempre contra o Fluminense!
Armações de bastidores nos prejudicaram? Com certeza, vide as “papeletas amarelas” de 1986.
Mas a isso, amigos, devem se somar doses cavalares de INAPETÊNCIA. O Fluminense, podem observar, entra nos clássicos como se estivesse treinando, sendo presa fácil para os seus rivais.
Em suma, para o tricolor-médio, ir a um clássico, hoje, é uma aposta contra as evidências – noves fora a nada desprezível possibilidade de violência.
E perder clássicos, ao contrário do que disse certa feita o Zé Bobão – sempre ele –, dói, meus caros!
Isso explica, em grande parte, por que não esgotamos – nem esgotaremos – a nossa cota de ingressos para o jogo decisivo de sábado.
Urge mudarmos esse quadro assustador.
Presidente Abad, como mandatário supremo do clube, cabe-lhe, entre outras magnas atribuições, galvanizar os jogadores do Fluminense, incutindo em suas mentes a majestade de um clássico estadual. Precisamos resgatar o nosso passado de vitórias sobre os rivais.
Quero ganhar a Copa Sul-Americana? Sim, claro!
Mas também quero ganhar o campeonato estadual, triunfando em clássicos sobre os rivais.
Somos bem mais fracos que o Flamengo, é forçoso convir. Mas, se entrarmos, no sábado, “pilhados”, ganharemos dos urubus.
Sempre foi assim.
Sempre será!

Saudações tricolores.

Texto de André Ferreira de Barros, tem 51 anos e acompanha o Fluminense, em estádios, desde a final da Taça Guanabara de 1975 – golaço do Rivelino contra o Mequinha.

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