“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (3)”

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (3)”

Segundo gol do Fluminense, Washington.


Sábado, primeiro de dezembro de 1984, um dia de muitas e profundas emoções.
Era o primeiro dia de vestibular da PUC/RJ. Ou seja, parte do meu extenuante ano estaria em jogo naquela tarde de sábado.
Era, também, dia de Fla x Flu decisivo, ao menos para nós. Afinal de contas, o empate entre Flamengo e Campo Grande nos recolocara no páreo, mas ainda não nos garantia uma vaga no triangular final do Campeonato mais importante do país. Para tal precisávamos vencer, na sequência, o Volta Redonda (2×0) e o próprio Flamengo.
Contava, à época, com 17 anos. Temendo por minha (i)maturidade, o meu saudoso pai interveio severamente: “Olha aqui, hoje não tem jogo, não! Concentre-se na prova. Nada de fazer a prova apressadamente. Eis o dinheiro da passagem e do lanche. Para o jogo, nada! E mais, a prova começará às 14:00 e terminará às 18:00. Como o 996 demora, aproximadamente, duas horas da PUC a Niterói, não quero vê-lo aqui antes das 20:00”.
“O velho tá certo!”, pensei eu, cá com os meus botões. “Tenho que passar no vestibular, ainda que a PUC/RJ não fosse a minha opção preferencial. De mais a mais, se o Fluminense ganhar o jogo, terei a oportunidade de ir ao triangular final”.
Parti, então, rumo à PUC/RJ.
Havia uma comichão? Claro que havia!
Sem açodamento – JURO!!!! -, terminei a prova com 30 minutos de antecedência.
Então, a comichão passou a tomar conta de meu corpo e de minh’alma.
Apertei o passo dentro do campus da PUC/RJ.
O grande empeço ao meu objetivo era a desgraça da CTC, empresa estatal que, então, explorava a linha 996 – Charitas//Gávea. O ônibus, com sorte, passava de hora em hora. Ou seja, se perdesse um, danava-se tudo…
Ao longe, avistei o 996 parado no ponto final, próximo à PUC/RJ.
Corri.
Digo, corri pacas.
Tinha muita gente querendo entrar no ônibus.
Apertei-me e entrei no ônibus.
Mais, acomodei-me na parte traseira do ônibus.
Três ou quatro minutos depois, percebi que o ônibus estava cheio de conhecidos.
Logo, logo, puxei o grito de “Nense”.
Os pulhas, claro, responderam com “Mengo”.
O clima de Fla x Flu tomou conta do 996.
Eu pouco conhecia o trajeto do ônibus 996. Gávea e Jardim Botânico eram bairros completamente desconhecidos para mim, que morava em Niterói.
Eis que, de repente, os orcs deflagraram uma salva de palmas. O 996 estava passando em frente à sede do C.R. Flamengo. E mais, o 996 parou num sinal em frente à sede do urubu.
Com o típico ímpeto da juventude, eu e alguns tricolores –uns conhecidos e outros não – forçamos a porta de trás, descemos do ônibus e começamos a urinar no muro, bem em cima do escudo do Flamengo.
Furiosos, os orcs desceram do ônibus e a porrada comeu. Porrada feia!!!!
Enquanto isso, o ônibus foi embora….
kkkkkkkk
Esperar outro 996 implicava não ir ao jogo.
Unidos pelo objetivo de ir ao Maracanã, tricolores e rubro-negros paramos de brigar e embarcamos num ônibus para a Central do Brasil.
Tic, tac.
Tic, tac.
Descemos na Central do Brasil e andamos até a Estação da Leopoldina.
Tic, tac.
Tic, tac.
Embarcamos num 999 – nem sei se existe mais.
Cheguei em casa, em Santa Rosa, quase às 20:20.

  • “Pai, fui bem na prova. Me dá uma grana para ir ao jogo”.
  • “Toma”, respondeu prontamente o velho.
  • “Mãe, faz alguma coisa para eu comer… vou jogar água no corpo… saio em 5 minutos…”.
  • “Tá pensando que eu sou máquina, garoto?”
    Tic, tac.
    Tic, tac.
    Sai esbaforido de casa. Correndo, literalmente.
    Cheguei em frente ao Colégio Salesianos, ponto final, um ônibus da Viação ABC – Santa Rosa//Vila Isabel – estava na iminência de sair.
    Eu berrei “EEEIIIII”.
    O motorista do ônibus ouviu. Mais, ele me esperou.
    Apesar dos pesares, tudo estava dando certo.
    Um bom presságio?
    Cheguei ao Maracanã com 3 minutos de jogo.
    Havia um flamenguista para cada dois tricolores. E eles jogando pelo empate. Sinal dos tempos.
    Falta no lateral esquerdo Branco.
    Branco bateu a falta.
    Gol do Assis.
    O bi se aproximava.
    Saúde e paz para todos.

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