“Auditoria” não é sinônimo de “Transparência” – Opinião Dr. Bruno Freitas

“Auditoria” não é sinônimo de “Transparência”

De início já digo não fazer parte do movimento subscritor do pedido de Auditoria Externa no Fluminense.
Mas não posso negar que o movimento tem toda a razão.
Repassando o Estatuto do Torcedor:

“Art. 33. Sem prejuízo do disposto nesta lei, cada entidade de prática desportiva fará publicar documento que contemple as diretrizes básicas de seu relacionamento com os torcedores, disciplinando, obrigatoriamente:
(…)
II – mecanismos de transparência financeira da entidade, inclusive com disposições relativas à realização de auditorias independentes, observado o disposto no art. 46-A da Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998;
(…)”
Vacila o Senhor Mario Bittencourt ao entender que “jogar” no Portal da Transparência do clube o trabalho da auditoria independente “Mazars” estará cumprindo a lei.
E está redondamente enganado porque o artigo legal é expresso em dizer “…mecanismos de transparência financeira da entidade, inclusive (…) auditorias independentes (…)” (Grifei).
Ou seja, para ser transparente não basta realizar um trabalho de auditoria e divulgar no portal do clube. É preciso mais.
Inicialmente é preciso ser contemporâneo e harmonizado com os demais setores do clube. Explico.
As contas de 2019 sequer foram votadas pelo Conselho Deliberativo (https://www.netflu.com.br/e-a-reuniao-online-conselho-informa-que-votacao-das-contas-de-2019-segue-sem-data/). Ora, se não houve votação, como é que se publica auditoria aprovando esses números no Portal da Transparência?
Atrasar injustificadamente a publicação e demonstração de resultados e, mais, sem qualquer votação do Conselho Deliberativo em nada é transparente.
De outro lado não se pode jogar a sujeira para debaixo do tapete.
O Conselho Fiscal do clube ao analisar as contas de 2016 assim se manifestou em seu parecer:
“a administração foi inconsequente e imprudente ao utilizar recursos de receitas não recorrentes para o aumento de despesas e custos de longo prazo. (…)
não houve compromisso com o planejamento dos anos subsequentes, gastando-se muito mais do que se podia, sem cuidado, criando e deixando que fossem criadas pelo Departamento de Futebol, a partir de receitas extraordinárias obtidas, entre outras, da venda das transmissões televisivas e de jogadores, despesas fixas, em contratos de longa duração, assinados de afogadilho, deixando passivo de grande monta, sem apontar fonte se custeio. (…)
foram também deixadas para pagamento posterior dívidas de comissionamento, sabendo-se que os recursos já estariam comprometidos.” Concluindo-se, ao final, que “por decisão da administração passada, o Fluminense começou o ano de 2017 sem caixa para cumprir suas obrigações.(…)”
Lembrando que a auditoria “Mazars” – segundo o próprio presidente – é quem realiza a auditoria anual publicada, indaga-se que lisura possui o trabalho dessa empresa ao emudecer o parecer de um Conselho Fiscal?
E não se venha dizer que as contas de 2016 foram aprovadas pelo Conselho Deliberativo, pois é fato que tais reuniões são mera formalidade segundo reza a tradição tricolor.
Destaque-se que no Santos FC, seu presidente foi afastado justamente por práticas similares àquelas praticadas pelo Sr. Peter Siemsen.
Trazendo a questão para os dias de hoje, quando a gestão Bittencourt faz vista grossa – sabe-se lá porquê – é certo dizer que não está sendo transparente e, portanto, não cumpre o Estatuto do Torcedor.
De outro lado, não respeita a Transparência a atual Proposta Orçamentária para 2020 (à exemplo de quase todas as outras que foram levadas à cabo no Fluminense). Prova disso se pode colher de diversas premissas as quais resumo em duas:

  1. Na primeira folha do documento o Dólar foi cotado à R$ 4,14 enquanto o Euro em R$ 4,60. Ora, não é preciso maior informação para saber que o orçamento desse ano está totalmente defasado por força da variação cambial. Isso significa que o prejuízo será maior do que o previsto e impactará nas contas de 2021;
  2. Nos últimos 30 dias o clube foi condenado a pagar em ações trabalhistas os atletas Matheus Gonçalves, Cláudio Aquino e outros em valores que extrapolam o dito “Contingenciamento Passivo” – isso revela uma péssima avaliação do Departamento Jurídico sobre as premissas de “Perda Possível” e “Perda Remota”.
    Isso é ser transparente Sr. Mario Bittencourt?
    É preciso, pois, saber diferenciar a Auditoria apresentada do conceito de Transparência. O primeiro não encerra o segundo. Está nele contido, mas longe de se esgotar, por todos os motivos aqui expostos.
    Não ser transparente além de ser prática ilegal fere o conceito de Governança Corporativa. Longe da teimosia, é má fé.
    E, nesse particular, emerge a necessidade da Auditoria Externa. Primeiro para confrontar todos os números apresentados – não pense que os mesmos são absolutos somente porque foram despejados no colo do torcedor; Segundo, porque um gestor minimamente competente tem que se valer desse serviço a fim de corrigir rotinas administrativas e, efetivamente, ser transparente.
    Transparência gera divisas que não podem ser dispensadas nos dias de hoje.
    Senhor Presidente, não se arrisque contra a lei. Não se arrisque contra o torcedor e, sobretudo, contra a história do Fluminense Football Clube.
    Sua vaidade é enorme. Então a use para o bem: construa um Busto seu na sede do clube – o que for – mas somente depois de liderar a cruzada pelo exorcismo dos fantasmas que assolam as Laranjeiras.

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