” O Fla-Flu de 19″ Opinião Eduardo Coelho

O FLA-FLU DE 19
Mário Filho
Amanheceu um dia feio, chove não chove. Ademar Martins vestiu-se cedo. Não saiu, porém, para a missa das onze. Abriu a janela da sala de visitas – ele morava no n° 51 da Rua Andrade Pertence , ali no Catete – e ficou olhando a gente que passava. Sim. Nada de missa das onze. E Ademar Martins surpreendeu-se sorrindo. A missa das onze não era missa. Era a saída, a porta, da Matriz da Glória. Quanta moça bonita! Elas vinham, mal acabava o sermão, em grupos. Passando entre duas filas de rapazes, rapazes do Fluminense e do Flamengo. Lá estavam, “assinando o ponto”, Carregal, Candiota, Junqueira, Rodrigo, Galvão, Paulo Magalhães, Telefone, Sisson, ele, o Japonês, Welfare, Chico Neto, Zezé, Mano, Fortes, Bacchi, Vidal. Havia risinhos abafados. Fortes, moleque como ele só, mandava Zezé olhar. Zezé, aí, não olhava. Ficava era vermelho, dizendo que não se devia brincar com coisas de religião. Depois o Lamas, ovos mexidos. O Bodoque vinha servir, perguntando, antes, como iam os rapazes. “E logo mais?” Logo mais era o jogo. Ah! o jogo! Por um momento ele se tinha esquecido de que daqui a pouco seriam adversários. “Depressa, Bodoque, depressa”. Bodoque gritava: “Ovos mexidinhos para um!” Antes do meio-dia quem estivesse no Largo do Machado podia ver os jogadores do Fluminense e do Flamengo de braço dado, seguindo o caminho das Laranjeiras. Eles cantavam desafios. Erguiam hurros que eram Abre-te Sésamo de todas as janelas da rua. Quando chegavam em Álvaro Chaves, o grupo do Fluminense dobrava a esquina. O do Flamengo seguia até Paissandu. A separação seria breve. Porque a tabela marcava um Fla-Flu para as três horas e meia.

Se o Flamengo vencesse, seria o campeão. E nunca tivera tanta certeza da vitória. 

Em outros Fla-Flu - pensava Ademar Martins, o Japonês - vá lá. Mas hoje... Hoje era 21 de dezembro e corria o ano de 19. Se o Flamengo vencesse seria o campeão. O Fluminense levava vantagem de um ponto. Podia empatar e, empatando, a Taça Colombo pela primeira vez teria um dono. Não. Japonês afastou a hipótese da derrota do Flamengo e de um empate. Nunca o Flamengo tivera tanta certeza da vitória. Durante toda a semana não se fizera outra coisa senão treinar. E que treinos! Japonês ia de bicicleta. Saia da Paissandu, tomava a Rua Farani, seguindo pela Praia do Botafogo, até a Praia Vermelha. Os outros, sem bicicleta, iam a pé, andando um pouco, correndo um pouco. E, como se isso não bastasse, depois de bate-bola, à tarde, apostava-se para ver quem dava mais voltas pelo campo. Sidnei era o campeão absoluto. Trinta voltas. Japonês e Dino vinham em segundo lugar: vinte e cinco voltas. E o Fluminense? Japonês sabia como o Fluminense treinava. Os jogadores carregavam sacos de areia e subiam o morro quase pegado ao campo. Às vezes - era o que se contava - Arnaldo Guinle dava o exemplo, fazendo ginástica com Fortes, Chico Neto (Chico Neto estava doente, não ia jogar. Quem ia jogar era o Otelo Rossi, chamado o Chico Neto de Juiz de Fora), Vidal, Lais, Oswaldo Gomes, Mano, Zezé Welfare, Machado, Bacchi. Marcos não aparecia nunca. Preparava-se em casa. Japonês sabia de tudo. E porque sabia de tudo deixou passar a hora da missa das onze. Aquele domingo era apenas um dos cinqüenta e dois domingo de todos os anos. 
Em Álvaro Chaves enfeitava-se o campo. Arnaldo Guinle tinha dado a ordem. Nenhum mastro devia ficar sem bandeira, tal como no Sul-Americano. Não se tratava apenas do Fla-Flu. O Fluminense mandara um convite a Epitácio Pessoa, Presidente da República, que morava ao lado, no Palácio Guanabara, como vizinho, do Flamengo e Fluminense. E Epitácio Pessoa - ele inaugurara a festa do Campeonato Sul-Americano e depois assistira a mais nenhum jogo - prometera comparecer. Assim o Fluminense tomou todas as providências para acolher o Presidente da República. Mandou-se buscar a banda dos Fuzileiros Navais. Quando o Chefe do Estado assomasse à tribuna de honra, seria tocado o Hino Nacional. Houve, ainda, recomendações expressas, como a que proibia Tota Rodrigues de disparar a salva de vinte e um tiros de pólvora seca, com o pequeno canhão, lá de cima do morro. Tota Rodrigues não gostou. Uma vitória sem tiros de canhão não parecia vitória. Mário Pollo veio com a história de que o canhão irritava. Era uma comemoração de triunfo barulhenta demais. E, além do mais, se o Fluminense vencesse havia a banda de clarins, já contratada - por via das dúvidas - e que ficaria escondida à espera de um sinal. E havia serpentina. Tota Rodrigues resmungou. Prometia a si mesmo disparar o canhão, custasse o que custasse. Desde cedo Alberto Ribeiro Valente estava na porta de Álvaro Chaves para "caçar os penetras". Quem não tinha ingresso tratava de fugir do "português". Todos, todos o confundiam com um português. E não adiantava ele mostrar certidão de batismo: Alberto Ribeiro Valente, nascido em Belém do Pará. Quem mandava ele usar aquele bigode carregado, aquela cara redonda e risonha, aquela barriga de negociante bem estabelecido na praça? Bastava Alberto Ribeiro Valente fazer um sinal. E saía faísca do bruto anel de brilhante que ele tinha. Português do Pará ou de onde fosse, não havia ninguém como ele para "caçar penetras". "Ah! o senhor é amigo de Fortes? E que tenho eu com isso?" O amigo de Fortes não conversava. Tratava era de coçar o bolso para comprar uma arquibancada. E com pressa, pois chegava gente de todo o lado. 
Os pingos d'água do céu, que caíam de quando em quando, para avisar que talvez chovesse, não assustavam o torcedor. Alguns, é verdade, apareciam de guarda-chuva, de capa de borracha. Outros, porém, vinham de chapéu de palha e de roupa branca. Para não chamar a chuva. E, às duas horas Alberto Ribeiro Valente, metendo o dedo polegar da mão direita no fundo do bolso do colete - uma pesada corrente de ouro de um relógio tipo cebola media-lhe o ventre - mandava fechar os portões. "Não entra mais ninguém!" É que ele tinha recebido um recado urgente. O estádio do Fluminense estava transbordando. Havia gente pendurada nos mastros das bandeiras. "Quem quiser ver o jogo, que vá para cima do morro". 
Enquanto isso, no vestiário do Fluminense, começando a mudar de roupa, Fortes perguntava a Lais: "Que é isso?" Lais estava batendo queixo. "Eu não sei por quê. Antes de entrar em campo dou para tremer. Não há-de ser nada, como sempre". Fortes assobiou alto. Sim, aquilo não havia de ser nada. Era melhor pensar em outras coisas. 
A cabeça, porém, estava cheia de Fla-Flu. E Fortes escutava frases soltas. Um falava em Eduardo Magalhães, que ia ser o juiz. Outro contava que Zé Pinha apostara quatro contos no Flamengo. Hein? O nome de Píndaro chegou aos ouvidos de Fortes junto com o nome de Bacchi. Quê? Píndaro tinha dito que ia quebrar a perna de Bacchi? "Você não está com medo, está, Bacchi?" Não, Bacchi não estava com medo. Pelo contrário. "Píndaro não quebra perna, Bacchi" - Welfare entrou na conversa: "Se Píndaro quer quebrar perna, Bacchi, Bacchi brinca com ele". Bacchi riu. Fortes riu mais alto. Todo mundo pensou que era por causa do português arrevesado de Welfare. Não era. Apenas Fortes se lembrava que, na frente dele, Luís Vidal - um flamengo incurável - tinha prometido uma motocicleta a Carregal. "Uma moto por um gol". - E Fortes, agora, sabia o que devia fazer para marcar Carregal. Toda vez que Carregal fosse apanhar uma bola, ele gritaria: pópópópó, imitando o ruído de uma motocicleta. 
Ainda não acabara a preliminar. Foi quando Virgílio Friedrigh, obedecendo a um sinal, apitou três vezes, balançando os braços, mandando parar o jogo. Aí a banda de Fuzileiros Navais atacou as primeiras notas do Hino Nacional. A multidão ficou de pé, descobrindo vinte mil cabeças. Era o Presidente Epitácio Pessoa que assomava à tribuna de honra do Fluminense. 
Depois se ouviu uma aclamação ensurdecedora. O Presidente Epitácio Pessoa agradeceu, curvando-se um pouco. E ele, antes de sentar-se ao lado de Arnaldo Guinle, teve que agradecer outra vez, porque os segundos times do Flamengo e Fluminense chegaram em frente a tribuna de honra e levantaram três ale-guás ao "Exmo. Sr. Dr. Presidente da República. Aleguá, guá, guá". "Magnífico espetáculo!" - disse Epitácio Pessoa a Arnaldo Guinle. E Arnaldo Guinle explicou o que era o Fla-Flu. "Vossa Excelência verá uma partida tradicional de futebol entre dois times que conhecem a significação da palavra esporte". Epitácio Pessoa queria saber quais os campeões sul-americanos que iam jogar. E sorriu para dizer que conhecia Friedenrich de nome. "Quem não conhece Friedenrich? E Marcos? E Neco? Não havia um jogador chamado Neco?"
Quem entra primeiro em campo é o Fluminense. O estádio parece vir abaixo. Lais da um passo, dois passos, e cai, com uma síncope. Os companheiros carregam-no para o vestiário. Depois voltaram para saudar o Presidente da República e família, Ministros de Estado e Corpo Diplomático. Não é ouvido o clássico hip, hurrah, nem o clássico aleguá. Os jogadores do Fluminense gritam ei-uei. Era "up way". Um ei-uei para o Presidente da República.  Um ei-uei para os Ministros de Estado. Um ei-uei para o Corpo Diplomático. Um ei-uei para o Flamengo. O Flamengo entra em campo. Explodem cabeças de negro e diante da tribuna de honra os braços se erguem. Rá, rá, rá, chim-bum! Chegara o momento das fotografias. Os dois times formam da mesma maneira, adotando a pose oficial dos campeões sul-americanos: a defesa de pé e o ataque ajoelhado. Enquanto posava para o fotógrafo, Fortes não tirava os olhos da arquibancada social do Fluminense. Ele pensou em um canteiro cheio de flores. Lá deviam estar, como sempre, a Srta. Tetéa Gasparoni, a Srta. Regina Moura, a Srta. Alda Borgeth. E também as Srtas. Gunai Bandeira, Luisa Polo, Sarita Rasteiro, Alicinha Neto Teixeira, Conceição Morais e Castro, Nair Cambacou, Eloisa Campelo. Do campo, porém, só se viam as cores alegres dos vestidos, dos chapéus altos, enfeitados, dos leques cada vez mais impacientes. 
Eduardo Magalhães apareceu vestido com blazer amplo, tão amplo que ninguém podia perceber o volume de um revólver. Porque Eduardo Magalhães dissera que: quem gosta mais de mim sou eu mesmo. Com calma ele chamou Sidnei e Oswaldo Gomes, capitains do Flamengo e do Fluminense. Sidnei escolhera cara, Oswaldo Gomes, coroa. Dá coroa. O Fluminense escolhe o lado da Rua Guanabara. A multidão começa a bater palmas compassadas. Um, dois, três. Saída do Flamengo. Um silêncio desce sobre o estádio. Só é rompido quando Zezé marca um gol e Eduardo Magalhães anula. Luís de Almeida grita que "era um escândalo fazer uma coisa daquelas nas barbas do Presidente da República". Eduardo Magalhães nem tomou conhecimento da vaia, mas ficou contente porque Zezé não protestou. Como Zezé ia protestar, se estava em off-side? Eduardo Magalhães sentia-se confortado com o peso do revólver. Fora bom prevenir-se. Um revólver carregado nunca fazia falta. E pênalti, contra o Fluminense! Luís de Almeida estoura os pulmões com um berro que se ouviu de lado a lado do estádio: "Respeite ao menos o Dr. Epitácio Pessoa, seu juiz". 
Quem vai bater o pênalti é Japonês. Quando se vê diante de Marcos, Japonês se lembra de que já batera treze pênaltis. Todos tinham entrado. Como este não haveria de entrar também? Durante toda a semana Japonês treinara pênalti. Usava o chute Barroso, dado com um lado do peito do pé. Sidnei recomendou: "de barroso". E, correndo para a bola Japonês experimenta, pela primeira vez na vida dele, o medo de errar. Que fora aquilo? No último instante ele resolvera chutar com o pé esquerdo, para o canto esquerdo, lado direito de Marcos. Marcos cai de um lado e rebate a bola com a mão. Sidnei invade a área e emenda. Marcos rebate de novo. Japonês corre e chuta outra vez. Marcos segura a bola. A multidão ficou parada, sem compreender logo, tal qual um cômico de cinema que só percebe, minutos depois, a graça de uma anedota. Foi assim com o pênalti defendido por Marcos. A bola estava longe quando a torcida despertou, prorrompendo em aplausos. 
O Fluminense tomava conta do campo. E Welfare percebeu logo que o Flamengo tinha um ponto fraco: Píndaro. Não porque Píndaro estivesse fora de forma e sim porque Píndaro perdera a cabeça com Bacchi. Toda vez que Bacchi pegava a bola, Píndaro corria feito um louco para cima dele, com vontade de quebrar. Bacchi, rápido, empurrava a bola e dava um salto. Píndaro caía. Toda vez que caía zangava-se cada vez mais. Welfare mandou fazer "jogo pela esquerda". E foi pela esquerda que o Fluminense conquistou o primeiro gol. Píndaro investira sobre Bacchi e Bacchi entregara a Machado. Não adiantou Zé Pinha saltar, o chute de Machado era indefensável. O Flamengo reagiu. E com um único gol no placar acabou o half-time. Os times abandonaram o campo e os convidados oficiais foram para o salão do Fluminense beber uma taça de "champagne". A Sra. Epitácio Pessoa ficou encantada, então, com a gentileza do Fluminense: uma taça de leite. O Fluminense soubera que a Sra. Mary Pessoa não podia beber "champagne", por prescrição médica, e que só bebia leite. 
A banda dos Fuzileiros Navais interrompe um dobrado e começa o segundo tempo. O Fluminense continua a forçar pela esquerda. Píndaro já está fora de si. Não havia jeito de ele acertar em Bacchi. E querendo esperar Bacchi ele furou uma bola. Welfare entra e faz o segundo gol. Aí se ouviu, pela primeira vez o canhão, lá em cima do morro. Era uma salva de antecipação de vitória. A torcida do Fluminense não teve mais dúvidas. E o Presidente Epitácio Pessoa perguntou a Arnaldo Guinle o que significavam aquelas palmas compassadas. "É que a torcida do Fluminense já está contando com o triunfo". Mas não falta muito para o jogo acabar?" "Falta, Excelência". Faltasse ou não faltasse, o Fluminense adquirira a certeza da vitória. E, ainda por cima, Bacchi saía correndo, passa por Japonês, vê Píndaro levantar o pé, salta por cima, cai, levanta-se e empurra a bola no canto. O canhão dá o segundo tiro. Dá mais outro para ficar em dia com o placar. E Machado marca o quarto gol. Aí apareceram os clarins. As serpentinas. E o canhão parecia que nunca mais ia acabar de dar tiros. 
O Presidente Epitácio Pessoa levantou-se. Abraçados, os times do Fluminense e do Flamengo correram para erguer um burra em frente à tribuna de honra. A multidão invadira o campo. Marcos aparecia nos braços dos torcedores. E também Bacchi, Lais, Machado e Fortes. De cima Fortes viu Carregal e começou a rir sozinho. Carregal não pegara quase na bola. Fortes ficara todo o tempo atrás dele, fazendo: "Pópó-pópó". Imitando o barulho da motocicleta que Carregal deixara de ganhar porque não marcara nenhum gol. O Presidente Epitácio Pessoa continuou de pé. "Parece um dia de Carnaval" - observou ele a Arnaldo Guinle. E parecia mesmo. As serpentinas cruzavam-se no ar. A banda de clarins toca ainda. E o canhão, lá em cima do morro, poderia lembrar um bombo gigantesco. Agora a banda dos Fuzileiros Navais entrava em campo, tocando um dobrado. Atrás dela vinha o time campeão. Depois a torcida, um batalhão de milhares e milhares de pessoas. Somente a banda e o time marchavam, com garbo militar. Os torcedores saltavam, jogando no ar os chapéus de palha que mais tarde cobririam o gramado, aqui a copa de um, ali a aba de outro.

💚❤🇮🇹

(Texto para lembrar alguns jornalistas de um site de uma famosa empresa “golpista” de comunicação a não roubar os títulos e a História do Fluminense).

FluminenseTricampeãoCariocaDe1919

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