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Opinião – “Nós, os culpados”

“Nós, os culpados”

Foto site NetFlu


O Fluminense, enfim, retornou ao campo de futebol. E, claro, protagonizou mais um vexame que, infelizmente, não será o último.
Os culpados por essa situação deprimente?
Não é difícil apontá-los, muito pelo contrário.
Começo agrupando os torcedores tricolores em quatro classes.
A primeira classe de torcedores tricolores é contada às dezenas, no máximo em duas centenas. São os aproveitadores de plantão, que só dão ao clube o que têm para dar dentro de si: incompetência, inapetência, retórica, ódio, cizânia e gula. Tais torcedores são um verdadeiro cancro para o Fluminense, mas só vicejam – e se cevam – porque uma imensa maioria não os importuna – e isso há décadas. Ou seja, a bem do rigor, eles não são culpados de nada, pois apenas ocupam o espaço deixado pelos grandes tricolores.
A segunda classe de torcedores também é bastante diminuta. Pense no comensalismo existente na natureza. Eles são como rêmoras, que abocanham as pequenas migalhas de toda sorte deixada pelos tubarões – uma P.J aqui, uma assessoria ali, uma intermediação acolá. Outrossim, também não são culpados de nada, eis que aproveitadores de segunda categoria.
A terceira classe de torcedores tricolores é a das “polianas”, que, contra todas as evidências, creem que tudo, num passe de mágica, vai melhorar. O Fluminense foi eliminado na primeira fase da Copa Sul-Americana? “Não há de ser nada! Tudo vai melhorar”. O Fluminense foi goleado pelo Volta Redonda? “Isso foi obra do acaso”. Estamos na iminência de ser eliminados da Copa do Brasil? “Aguardemos o Campeonato Brasileiro”. Ficamos em décimo quarto lugar no Brasileirão? “Ano que vem melhora”. Essa classe de torcedores é bastante numerosa, e os seus integrantes me dão nos nervos, pois, com a sua pouca ambição e excesso de idiotice, legitimam o exercício desastroso do poder por parte das duas classes anteriores. Vocês, “polianas”, desconhecem a grandeza do Fluminense e “cantarão e vibrarão o jogo todo” mesmo diante duma hecatombe. Isso não é amor, “polianas”, é martírio!
Por fim, a quarta e mais numerosa classe de torcedores – na qual eu, impiedosamente, me incluo: a dos omissos. Refiro-me àqueles que sabem que está tudo uma droga, que ainda vai piorar bastante e, a despeito disso, não fazem nada de efetivo para mudar esse quadro dantesco. Lembram-se de Manoel Schwartz, de Francisco Horta, de Newton Graúna, de Antônio de Castro Gil e de outros tantos que engrandeceram o Fluminense. Têm certeza, portanto, que Mário Bittencourt é a encarnação da degradação do Fluminense. Num exercício de abstração, alguém o imaginaria concorrendo à Presidência nos anos 80? Aliás, alguém o imaginaria com algum cargo no clube nessa época? Claro que não! Mas, desafortunadamente, depois de um ou outro muxoxo no grupo de zap, todos se calam, deixando as duas primeiras classes nadarem de braçada e enterrarem, cada vez mais, o Fluminense. Em suma, Fábio Egypto, Ângelo Chaves, Peter Siemsen, Danilo Félix, Pedro Abad, Mário Biitencourt e outros desse tenebroso naipe são produtos de nossa gigantesca desídia. Nós, os culpados!!!
Saúde e paz para todos.

Opinião – “O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (10)”

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (10)”


23 de setembro de 1984.
Flamengo x Fluminense, decisão da Taça Guanabara de 1984.
Lutávamos pelo bicampeonato da outrora relevante Taça GB.
Pensei em dizer que fui a todos os Fla x Flu da década de 80.
Mas, como eu posso ser traído pela memória cada vez mais falha, deixo aberta uma fresta para lapsos: não me lembro de ter perdido um único Fla x Flu na década de 80. Aliás, não me lembro de ter perdido um único clássico na década de 80.
E, lógico, numa arquibancada rachada ao meio, nós, tricolores, costumeiramente “engolíamos” os molambos, que desde sempre foram como pombos – muitos, feios, sujos e não cantam.
Mas algo soava distinto naquele domingo ensolarado de setembro de 1984.
É forçoso – e doloroso – reconhecer que os molambos nos calaram. Não aos gritos de “Mengo”, mas, sim, aos de “ô ô ô… Fluminense malufou…”.
Nós, tricolores, entreolhávamo-nos atônitos, sem saber, ao certo, como reagir àquela provocação.
Embora houvesse uma faixa aqui outra ali, na torcida do Fluminense, rechaçando o apoio do clube – ou, ao menos, de parte dele – ao que era considerado retrógrado à época, a massa tricolor restava inerte na arquibancada à direita das tribunas. Só os urubus gritavam.
Isso porque, convém lembrar, às vésperas do jogo decisivo, metade do grupo do time Campeão Brasileiro – entre eles o grande goleiro Paulo Vítor – foi hipotecar apoio político a Paulo Salim Maluf – um candidato identificado com a ditadura militar e com a compra de votos no infame colégio eleitoral.
Inevitavelmente, a pasmaceira passou da arquibancada para o campo. Abobado, o capitão Duílio creu ter ouvido o apito do juiz e colocou a mão na bola. Tita cobrou a falta e Adílio marcou de cabeça. Desunidos, perdemos o jogo, ou melhor, a batalha.
Em 16 de dezembro de 1984, como já contei aqui, daríamos o troco nos urubus, vencendo a guerra, com mais um golaço do Carrasco Assis.
Mas a História nos deixou lições, inesquecíveis e dolorosas lições.
Torcedor tricolor, sincera e honestamente, não tenho a menor intenção de influenciar a sua orientação política. Não sou filiado a nenhum partido político, muito menos tenho político de estimação.
Mas sou intransigente defensor de valores democráticos – sem os quais não poderia estar aqui, livremente, escrevendo (“free market place of ideas”). E graças aos quais os meus opositores vão poder me descer o cacete nos comentários.
Mas, seja você de direita, centro ou esquerda, tenha sempre a democracia como valor fundamental e inalienável.
Não fiquemos, outra vez, do lado errado da História.
Saúde e paz para todos.

O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (9)”

O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (9)”

Imagens Sportv – Narração Luiz Carlos Júnior

Primeiro de novembro de 2009.
A campanha épica do Fluminense na Copa Libertadores de 2008 forjou uma pequena tricolor de quatro costados em minha casa: Marine, minha filha, então com nove anos de idade.
Cerca de um ano depois, o Fluminense fazia uma campanha pífia no Brasileirão de 2009. Os matemáticos cravavam em 2%, na melhor das hipóteses, as chances de nossa permanência na primeira divisão.
Empolgadíssima com a vitória sobre o Atlético/MG – um dos melhores times do Campeonato de 2009 –, Marine, do alto de sua doce inocência, cria piamente em outro triunfo sobre o poderoso Cruzeiro/MG, então líder do Brasileirão. Tentei, de alguma maneira, esfriar os seus ânimos, alertando-lhe que, desta feita, o Fluminense jogaria fora de casa e, pior, com o Mineirão lotado. Nada, no entanto, lhe continha o ímpeto. Mais, deixando escapar uma ponta de superstição, ela disse que chamaria sua colega de colégio, Ingrid, para assistir ao jogo conosco. E deveríamos todos guardar a mesma posição do meio de semana…
Marine e Ingrid, eufóricas, envergavam a camisa tricolor. Eu, confesso, estava bastante ressabiado. Afinal, o Fluminense empilhava vexames no Campeonato.
Os dois times já estavam em campo. Então, um grito ensurdecedor tomou conta do estádio: “Fred guerreiro… volta pro Cruzeiro…”. As imagens da televisão mostraram o centroavante do Fluminense impassível diante da reverência da massa azul-celeste.
Bola rolando.
Pressão total cruzeirense.
Guérron – o maldito – nos infernizando de novo. Ô carma!!!
Pênalti perdido… gol do Cruzeiro… gol do Cruzeiro. Algo assim, não me lembro ao certo da sequência – registro que tenho um compromisso comigo mesmo de somente consultar o Google para conferir as datas dos jogos.
Intervalo de jogo no Mineirão.
Cruzeiro 2 x 0 Fluminense.
Foi pouco, muito pouco.
A vaca estava indo para o brejo com bezerro e tudo. À velocidade da luz.
Conformado, eu comecei a mexer nuns papéis do trabalho. Quando dei por mim, o segundo tempo do jogo já havia começado. O Fluminense voltou com três zagueiros – Gum, Dalton e Digão. “Grande coisa”, pensei eu, cá com meus botões.
Do nada, o time engrenou e passou a encurralar o Cruzeiro.
Gum, o Guerreiro, então desconhecido, marcou o primeiro gol, dando início à reação.
Fred, o ídolo em construção, empatou o jogo.
Fred, o mito em construção, após jogada espetacular de Maicon, virou o jogo.
Fred guerreiro voltou do Cruzeiro.
Oxalá rendimentos do passado sejam garantia de lucros no futuro.
Saúde e paz para todos.

Foto capa arquivo globoesporte.com

Opinião – André F. de Barros – “O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (8)”

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (8)”


Você sabia que, no time campeão estadual de 1980, o lateral-direito tricolor (Edevaldo) envergava a camisa 2, o zagueiro central (Tadeu), a 3, o quarto-zagueiro (Edinho), a 5, o lateral-esquerdo (Rubens Galaxe), a 4 e o volante (Deley), a 6?
Você sabia que, na maior parte do tempo, no timaço de 83/84/85, o lateral-direito tricolor (Aldo) envergava a camisa 4, o zagueiro-central (Duílio), a 2, o quarto-zagueiro (Ricardo), a 3, o lateral-esquerdo (Branco), a 6 e o volante (Jandir), a 5?
Você sabia que, nos jogos decisivos de 1984, Paulo Vítor não sofreu nenhum gol? No Campeonato Brasileiro, foram duas semifinais contra o Corinthians – sendo uma vitória em São Paulo (0x2) e um empate no Rio (0x0) – e duas finais contra o Vasco – com uma vitória do Flu (0x1) e um empate (0x0). Já no Campeonato Carioca, foram duas vitórias consecutivas – contra Vasco (2×0) e contra Flamengo (1×0).
Você sabia que, no triênio 83/84/85, os gols decisivos do Fluminense ocorreram na baliza à direita das cabines de rádio? Recordar é viver: Assis contra o Flamengo (1983), Romerito contra o Vasco (1984), Assis contra o Flamengo (1984), Romerito contra o Bangu (1985) e Paulinho contra o Bangu (1985).
Você sabia que Assis marcou o gol do bi aos 30 minutos do segundo tempo, e Paulinho, o do tri aos 31 minutos do segundo tempo?
Você sabia que, embora o saudoso Assis tenha sido imortalizado como “Carrasco do Flamengo”, Paulinho foi o único jogador do Fluminense a marcar gol nos três triangulares decisivos? Recordemos: ele marcou gol contra o Bangu em 1983, contra o Vasco em 1984 e contra o Bangu em 1985.
Você sabia que o Danilo Félix é um Mário Bittencourt que sabe informática?
Você sabia que o Mário Bittencourt é um Danilo Félix que sabe juridiquês?
Saúde e paz para todos.

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (7)”

Imagens Rede Globo – Narração Galvão Bueno.

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (7)”


18 de dezembro de 1985.
Se a manhã dos dias de jogos decisivos de anos anteriores emitiram sinais e vibrações positivas, a daquela quarta-feira se iniciara de forma contrastante: Kohoutek – o meu lendário cachorro vira-latas com nome de cometa e de astrônomo checo – partira desta vida para a melhor. Evidentemente, eu estava muito, muito chateado.
Eu cursava o primeiro ano de Engenharia e já estava de férias. Por outras palavras, como ainda não fazia estágio, estava entregue ao ócio – merecido, diga-se de passagem, pois a transição do Colégio Salesianos para a UFRJ não fora fácil. Quem passou por isso sabe do que estou falando. Mas, a imagem de Kohoutek agonizando na mesa do veterinário era assaz atordoante em minha mente.
Empurrado por meu grande amigo Melão, fui para o Clube dos Pioneiros, em Santa Rosa, Niterói/RJ – outro inesquecível marco da minha juventude.
O assunto no clube era um só: a possibilidade do tri por parte do Fluminense F.C.
Para tal, precisávamos vencer a fortíssima equipe do Bangu, que tinha eliminado ninguém menos do que o C. R. Flamengo.
Ensimesmado, eu não abria a boca. Mais, persistia em minha mente a dúvida sobre ir, ou não, ao jogo.
20:00. Impelido pelos colegas, parti para o Maracanã. Aliás, partimos – todos no ônibus da Young-Flu Niterói.
4 minutos de jogo… Gol do Bangu, que jogava pelo empate.
É… o dia começou mal, haveria de terminar mal. Eu não soubera ler os sinais.
Renê jogava bem. Aliás, jogava muito bem, mas não tinha a estrela do Assis.
Por outro lado, o Bangu – do astuto Moisés – estava bem postado em campo.
Perivaldo marcava Tato em cima.
Então, Tato se machuca.
Deuses do futebol intervêm.
Segundo tempo.
Romerito empatou o jogo.
Torcida tricolor encurralou o Bangu.
Paulinho virou o jogo em cobrança de falta magistral.
Último lance do jogo: Cláudio Adão caiu na área do Fluminense.
José Roberto Wright, acertadamente, não marcou nada.
Afinal não foi o Vica que derrubara o Adão.
Diferentemente, o espírito do Kohoutek se materializara e mordeu o Cláudio Adão dentro da grande área do Fluminense.
Segue o jogo.
Saúde e paz para todos.

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (6)” – Opinião

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (6)”

Detalhe para o estado do gramado antes de começar o jogo.

O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (6)”


Sabemos todos que a vida de um torcedor de futebol não é feita apenas de estórias com doces finais felizes.
Domingo, 5 de dezembro de 1976.
Para uns, foi o dia da “Invasão Corintiana”.
Para mim, parafraseando o Presidente Franklin Delano Roosevelt, foi o “Dia da Infâmia”.
Três grandes indagações consumiam minh’alma, então um moleque de 09 anos.
A primeira e mais óbvia pergunta era: por que o astuto Presidente Francisco Horta teria vendido, antecipadamente, numa complexa operação via Banespa, 50.000 ingressos para a apaixonada torcida do Corinthians num jogo único válido pela semifinal do campeonato brasileiro de 1976? Teria algum integrante da Flusócio entrado no túnel do tempo e abduzido o Grande Francisco Horta? Essa me parecia ser a hipótese mais plausível até que assisti à explicação da boca do eterno Presidente. O Fluminense estava em débito com o Corinthians ainda pela compra do Rivelino em 1975. Devido à relação pessoal e próxima entre Horta e Vicente Matheus, então Presidente do Timão, a coisa não foi para frente. Mas, diante disso, Francisco Horta se viu na obrigação de ceder os 50.000 ingressos para o clube paulista. Está explicado. Aliás, está mais do que explicado.
A segunda indagação é, talvez, a que mais me atormenta: por que a polícia militar do Estado do Rio de Janeiro permitiu o acesso preferencial ao estádio à torcida do Corinthians se, em clássicos regionais, as duas torcidas entravam juntas pela mesma rampa? Como consequência desse ato tresloucado, quando eu entrei no Maracanã, por volta de 14:30, havia 1.000 tricolores à esquerda das cabines de rádio e 70.000 vozes contrárias (50.000 corintianos e 20.000 flamenguistas). A torcida tricolor foi entrando a conta-gotas no estádio. Foi um massacre sem igual. Só equilibramos em número de torcedores lá pelas 16:30. Só superamos a Fiel com o jogo já em andamento. Ou seja, na maior parte do tempo, o Maracanã foi um verdadeiro “Recreio dos Bandeirantes”. O troco não tardaria, mas isso é outra estória.
A terceira indagação: por que o jogo não foi suspenso? Aquilo não era futebol, era water polo. Consta que se temia uma forte reação da massa corintiana, que teria de retornar à Sampa de mãos abanando. Aí, já seria excesso de galhardia. Torno a achar que alguém da Flusócio entrou na máquina do tempo e tomou decisões naquele fatídico dia.
Saúde e paz para todos.

O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (5)”

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (5)”

Fluminense 1×0 Flamengo (16/12/1984) – Triangular Final Carioca 1984 (Fluminense bicampeão)


Domingo, 16 de dezembro de 1984, dia da grande final entre Flamengo e Fluminense.
Os dias que se seguiram à fácil vitória do Flamengo sobre o time misto do Vasco – melhor seria dizer pantomima – foram marcados por ameaças mútuas entre torcedores tricolores e rubro-negros.
Naquele domingo de sol, a tensão era evidente, de parte a parte. Se alguém riscasse um fósforo, fogo pegava, qual um paiol.
A “ordem geral” era andar em grupo para inibir agressões.
Da Rua Mariz e Barros, esquina com a Praia de Icaraí, partiriam três ônibus da Young-Flu/Niterói. Do antigo “Beer Bar”, sairiam os ônibus da Raça Rubro-Negra – lembrando que o sentido da Rua Pereira da Silva era inverso ao de hoje.
Não costumávamos cruzar com os orcs.
Era bom para nós; era bom para eles.
Naquela época, a Praia de Icaraí era minimamente balneável. Sublinho: minimamente.
Imaginem, amigos, o nó no trânsito na Rua Mariz e Barros: 14:00, movimento de praia, algazarra da Young Flu numa esquina…
14:00, 14:15.
A caravana partiu rumo ao Maracanã.
Desafortunadamente, um dos ônibus da caravana se desgarrou, ficando para trás.
“Espera”, disse um.
“Vam’bora, tô vendo eles”, garantiu outro.
E seguimos para o Maracanã – até porque não seria possível contornar ou parar na Rua Mariz e Barros.
À medida que se aproximava a Ponte Rio-Niterói, aumentava o fluxo de carros e ônibus rumo ao Maracanã.
E se tornava cada vez mais difícil reunir a alcateia tricolor que partira de Icaraí.
Já no município do Rio de Janeiro, mais precisamente na Praça da Bandeira, deu-se um ataque de orcs. Éramos alvos fáceis – silly ducks –, encaixotados em ônibus parados no trânsito, à mercê de paus e pedras. Foram segundos – ou minutos, não me lembro – de terror. De repente, chegou a cavalaria. Integrantes de quatro ônibus da Fluburgo acorreram em nosso providencial socorro. A eles se juntaram alguns membros da “… maior Força Flu de todos os tempos…” – “.. o terror veste verde…”. Enquanto isso, descemos dos ônibus. Os orcs apanharam muito, muito, muito mesmo. Costumo dizer que nós nos investimos, na ocasião, da função punitiva do Estado…
Retomando o equilíbrio e o raciocínio, decidimos andar da Praça da Bandeira até o Maracanã. Por dois motivos principais. Primeiro, o trânsito estava, realmente, muito lento no local. Chegaríamos mais rapidamente ao estádio a pé. Segundo, evitaríamos novas emboscadas dos orcs.
Tricolores e rubro-negros andando em gigantescos agrupamentos com escaramuças aqui e ali. Essa é uma das mais marcantes imagens da minha memória como torcedor-raiz.
Subitamente, na Avenida Radial Oeste, espocaram morteiros.
Sons incrivelmente perturbadores.
Eram tricolores alvejando rubro-negros na passarela que ligava a estação do trem ao estádio do Maracanã.
Não, não éramos santos. Definitivamente, não éramos santos.
De imediato, instalou-se um corre-corre diante da conhecida “galhardia policial”, para não dizer outra coisa. Aliás, perto da PM daquela época, a de hoje é composta só por gentlemen.
Separa daqui, separa dali, chegou a notícia, por meio de um PM incrivelmente cortês para os padrões da época: o terceiro ônibus da Young-Flu cruzara com a caravana da Raça Rubro-Negra, na Rua Roberto Silveira, ainda em Niterói. A coisa foi feia, bem feia. Ônibus depredado, muitos feridos, alguns encaminhados ao Hospital Antônio Pedro. Numa época em que não havia comunicação instantânea, era tudo o que sabíamos.
Senti um frio na espinha.
Meu Deus do Céu!
O clima no entorno do estádio era de muita tensão.
O número de policiais miliares era bastante reduzido, se comparado com a multidão presente ao evento. Aliás, ante o notório despreparo das forças de segurança, sinceramente, não sabia se isso era bom ou se era ruim.
Cochichei com os meus amigos tricolores mais próximos: “precisamos entrar logo no estádio”.
Todos concordaram.
A propósito, como tínhamos adquirido o ingresso antecipadamente na loja “As Samaritanas”, o nosso objetivo foi facilitado, apesar das longas filas. Afinal, por força da tradição, cada torcida formava a fila nas bilheterias em frente às rampas às quais teriam acesso. Ou seja, dificilmente ocorreriam brigas nas filas.
Entrei no estádio por volta das 15:45.
Preliminar Flamengo x Vasco. Não me lembro o porquê.
Público chegando aos montes.
Maracanã, casa cheia!!
Nunca vi nada igual.
155.000 pagantes.
170.000 presentes.
80.000 tricolores.
Ou seja, 10.000 orcs a mais no setor da geral. E olhe lá!
Os times entraram em campo.
O Fluminense, com a tradicional camisa tricolor.
Uma nuvem de pó de arroz cobriu todo o Maracanã, da direita para a esquerda.
Eles tentaram responder soltando um urubu. Desorientada pela cachaça e pelo talco, a ave de rapina voou para o lado errado e foi abatida pela “… artilharia inimiga…”, na expressão do grande Léo Batista.
A Nassão se calou.
Aliás, nunca mais a Nassão levaria um urubu num Fla x Flu. Já não dera certo em 1983.
O grito de “Nense”, sem oposição alguma, tomou conta de todo o estádio.
Primeiro tempo equilibrado. Fluminense pareceu mais consistente, apesar dos sensíveis desfalques de Ricardo, Branco, Jandir e Deley. A rigor, chances claras de gol não houve.
Segundo tempo também começou equilibrado.
De repente, Tita deu uma porrada, e Paulo Vítor fez uma grande defesa.
Minutos depois, Élder deu outra porrada, e Paulo Vítor fez outra grande defesa.
A Nassão se agitou.
Enquanto isso, tal qual em 1983, Duílio iniciou uma jogada pela direita do campo… Aldo passou nas costas de Adalberto e cruzou a bola na cabeça de Assis…
“Recordar é viver… Assis acabou com vocês”.
Saúde e paz para todos.

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (4)”

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (4)”

Fluminense 2×0 Vasco – Imagem vídeo Rede Globo de Televisão


A santa vitória no Fla x Flu (2×1) nos habilitava a participar do triangular final do Campeonato Estadual de 1984, junto a Vasco e a Flamengo.
A ordem dos jogos do triangular final seria decidida por sorteio, na sede da FERJ, na segunda feira, 03 de dezembro de 1984.
Evidentemente, todos – tricolores, rubro-negros e vascaínos – queriam ficar de fora na primeira rodada do triangular decisivo.
Afinal de contas, além de ter mais tempo para descansar, aquele que ficasse de fora enfrentaria o time perdedor da primeira partida já virtualmente eliminado, pois o tríplice empate beneficiaria a equipe de melhor campanha, no caso, o Fluminense.
O sorteio apontou Fluminense x Vasco como o primeiro jogo do triangular decisivo, domingo, 09 de dezembro de 1984.
Conheço a máxima “quem quer ser campeão não escolhe caminhos ou adversários”.
Só não concordo integralmente com ela.
Nesse caso específico, eu não gostei do sorteio.
Explico mais detidamente.
Aqueles que acompanharam, de perto, o futebol do Estado do Rio de Janeiro nos anos 70 e 80, conhecem o ódio que os vascaínos nutriam pelo Fluminense. Um ódio muito maior do que eles nutriam pelo Flamengo. Está em dúvida? Pergunte a um vascaíno cinquentão… O Vasco não conquistava em título em cima do Fluminense – mesmo o de um simples turno – desde 1948. Era o maior jejum da história do futebol brasileiro. A gana deles em cima do Fluminense crescia a olhos vistos. Embora, ao final, os resultados, invariavelmente, favorecessem o Fluminense, as partidas contra o Vasco eram renhidas. Mais do que os disputadíssimos Fla x Flu. Bem mais, acrescento.
A conquista do Campeonato Brasileiro de 1984 em cima do Vasco fez com que os portões do inferno se abrissem. Amizades eram desfeitas ao coro de “1,2,3… o Vasco é freguês…”. A rivalidade ultrapassava as fronteiras da urbanidade.
Enfim, cada Fluminense x Vasco era uma guerra. Dentro e fora de campo.
Para piorar o quadro, um episódio negro na nossa História. O Vasco fazia uma péssima campanha na Taça Guanabara. Arthurzinho – o Rei Arthur, que começara a carreira nas Laranjeiras – após um apoteótico Campeonato Brasileiro trocou São Januário pelo Parque São Jorge – para envergar o camisa 8 do Timão, no lugar do Sócrates. O timaço do Edu parecia degringolar. Quando tudo ia de mal a pior, Jurema – a notória e notável mulher do grande Roberto Dinamite – veio a óbito justamente na véspera do Fluminense x Vasco. O Vasco parecia, irremediavelmente, ir à lona. Desafortunadamente, já com os dois times em campo, a torcida tricolor entoou um cântico pra lá de infame: “A Jurema morreu…. e o Roberto se f…..”. A arquibancada rachou. O Vasco se uniu na dor e no ódio. Qual fênix, o Vasco renasceu das cinzas. Por obra e graça de uma brincadeira de péssimo gosto da torcida tricolor. O jogo terminou 0x0. Eles mereciam ter ganho.
Mas a justiça não tardaria. Em 15/11/1984, pelo segundo turno do Campeonato Estadual, com a faca nos dentes e jogando muito melhor, o Vasco derrotou, de virada, o Fluminense por 2×1, dando início à via-crúcis que só terminaria com o milagroso empate do Campo Grande com o Flamengo.
Em suma, diante estaríamos, a meu ver, do mais perigoso dos adversários. E com o fortíssimo Flamengo à espreita, descansando todo o time.
09 de dezembro de 1984.
Domingo de sol.
Maracanã lotado.
Maracanã colorido.
Maracanã dividido. E, aqui, presto a minha homenagem à gigantesca torcida vascaína, da qual faz(ia) parte a minha querida mãe – que, aliás, passou a detestar menos o Fluminense quando viu que a minha opção clubística era irreversível.
Bola rolando no Maracanã.
Dois minutos de jogo… Tato carimbou a trave de Roberto Costa.
Só dava Fluminense no jogo.
Vasco acuado.
Fluminense empilhando chances de gol.
Massa cruzmaltina com gosto de déjà-vu.
Washington, cara a cara, chutou em cima de Roberto Costa.
Terminou o primeiro tempo… 0x0
Segundo tempo… Romerito… Paulinho… 2×0.
Ecoou, então, no estádio o grito que a torcida do Vasco mais detestava – embora, esse nada tivesse de odioso: “É o destino… É o destino…”. Desculpe, Alexandre.
O bi se aproximava.
Saúde e paz para todos.

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (3)”

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (3)”

Segundo gol do Fluminense, Washington.


Sábado, primeiro de dezembro de 1984, um dia de muitas e profundas emoções.
Era o primeiro dia de vestibular da PUC/RJ. Ou seja, parte do meu extenuante ano estaria em jogo naquela tarde de sábado.
Era, também, dia de Fla x Flu decisivo, ao menos para nós. Afinal de contas, o empate entre Flamengo e Campo Grande nos recolocara no páreo, mas ainda não nos garantia uma vaga no triangular final do Campeonato mais importante do país. Para tal precisávamos vencer, na sequência, o Volta Redonda (2×0) e o próprio Flamengo.
Contava, à época, com 17 anos. Temendo por minha (i)maturidade, o meu saudoso pai interveio severamente: “Olha aqui, hoje não tem jogo, não! Concentre-se na prova. Nada de fazer a prova apressadamente. Eis o dinheiro da passagem e do lanche. Para o jogo, nada! E mais, a prova começará às 14:00 e terminará às 18:00. Como o 996 demora, aproximadamente, duas horas da PUC a Niterói, não quero vê-lo aqui antes das 20:00”.
“O velho tá certo!”, pensei eu, cá com os meus botões. “Tenho que passar no vestibular, ainda que a PUC/RJ não fosse a minha opção preferencial. De mais a mais, se o Fluminense ganhar o jogo, terei a oportunidade de ir ao triangular final”.
Parti, então, rumo à PUC/RJ.
Havia uma comichão? Claro que havia!
Sem açodamento – JURO!!!! -, terminei a prova com 30 minutos de antecedência.
Então, a comichão passou a tomar conta de meu corpo e de minh’alma.
Apertei o passo dentro do campus da PUC/RJ.
O grande empeço ao meu objetivo era a desgraça da CTC, empresa estatal que, então, explorava a linha 996 – Charitas//Gávea. O ônibus, com sorte, passava de hora em hora. Ou seja, se perdesse um, danava-se tudo…
Ao longe, avistei o 996 parado no ponto final, próximo à PUC/RJ.
Corri.
Digo, corri pacas.
Tinha muita gente querendo entrar no ônibus.
Apertei-me e entrei no ônibus.
Mais, acomodei-me na parte traseira do ônibus.
Três ou quatro minutos depois, percebi que o ônibus estava cheio de conhecidos.
Logo, logo, puxei o grito de “Nense”.
Os pulhas, claro, responderam com “Mengo”.
O clima de Fla x Flu tomou conta do 996.
Eu pouco conhecia o trajeto do ônibus 996. Gávea e Jardim Botânico eram bairros completamente desconhecidos para mim, que morava em Niterói.
Eis que, de repente, os orcs deflagraram uma salva de palmas. O 996 estava passando em frente à sede do C.R. Flamengo. E mais, o 996 parou num sinal em frente à sede do urubu.
Com o típico ímpeto da juventude, eu e alguns tricolores –uns conhecidos e outros não – forçamos a porta de trás, descemos do ônibus e começamos a urinar no muro, bem em cima do escudo do Flamengo.
Furiosos, os orcs desceram do ônibus e a porrada comeu. Porrada feia!!!!
Enquanto isso, o ônibus foi embora….
kkkkkkkk
Esperar outro 996 implicava não ir ao jogo.
Unidos pelo objetivo de ir ao Maracanã, tricolores e rubro-negros paramos de brigar e embarcamos num ônibus para a Central do Brasil.
Tic, tac.
Tic, tac.
Descemos na Central do Brasil e andamos até a Estação da Leopoldina.
Tic, tac.
Tic, tac.
Embarcamos num 999 – nem sei se existe mais.
Cheguei em casa, em Santa Rosa, quase às 20:20.

  • “Pai, fui bem na prova. Me dá uma grana para ir ao jogo”.
  • “Toma”, respondeu prontamente o velho.
  • “Mãe, faz alguma coisa para eu comer… vou jogar água no corpo… saio em 5 minutos…”.
  • “Tá pensando que eu sou máquina, garoto?”
    Tic, tac.
    Tic, tac.
    Sai esbaforido de casa. Correndo, literalmente.
    Cheguei em frente ao Colégio Salesianos, ponto final, um ônibus da Viação ABC – Santa Rosa//Vila Isabel – estava na iminência de sair.
    Eu berrei “EEEIIIII”.
    O motorista do ônibus ouviu. Mais, ele me esperou.
    Apesar dos pesares, tudo estava dando certo.
    Um bom presságio?
    Cheguei ao Maracanã com 3 minutos de jogo.
    Havia um flamenguista para cada dois tricolores. E eles jogando pelo empate. Sinal dos tempos.
    Falta no lateral esquerdo Branco.
    Branco bateu a falta.
    Gol do Assis.
    O bi se aproximava.
    Saúde e paz para todos.

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (2)”

“O amor (ao Fluminense) em tempos de COVID-19 – Passagem (2)”


24 de novembro de 1984, por volta de 07:00.
Todos os alunos confluíam para a recém-inaugurada portaria central do Colégio Salesianos Santa Rosa.
A Young-Flu Niterói e a Raça Rubro-Negra contavam com aguerridos membros no Colégio. E a convivência entre nós, claro, não era nada amistosa.
Naquele dia e naquelas circusntâncias, os tricolores estavam nas nuvens e os rubro-negros com os nervos à flor da pele.
Afinal de contas, o inesperado empate do poderoso Flamengo com o modesto Campo Grande, em pleno Maracanã, recolocou o Fluminense no páreo.
E, naquela época, amigos, recolocar o Fluminense no páreo, sabíamos todos, equivalia a entregar o troféu nas Laranjeiras.
Tornando à portaria do Colégio, dá para imaginar o auê. Ameaças de “te pego lá fora!”, “Siqueira Campos, 12:15”, “filho disso”, “filho daquilo”, etc. Coitados dos porteiros!
Ao final das aulas, não deu outra: porrada geral. Muitos contra muitos na Siqueira Campos às 12:15.
Um pequeno aperitivo para o que viria no inesquecível primeiro de dezembro de 1984.
O bi se aproximava.
Saúde e paz para todos.

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